Ex-pastor se assumiu homossexual e hoje critica a "cura gay"
Ex-pastor se assumiu homossexual e hoje critica a “cura gay”
por Jarbas Aragão
Existe ex-ex-gay? Sergio Viula, 45 anos, que é professor de inglês, além de formado em filosofia e teologia acredita que sim. De tempos em tempos ele dá uma entrevista para um veículo secular tentando negar que um homossexual possa mudar de vida através da conversão aos ensinamentos bíblicos.
Desta vez ele falou com o programa Lado Bi, na Rádio UOL, que pelo nome indica o objetivo dos debates. O tema era “cura gay” e Sergio, que foi um dos fundadores do Moses (Movimento pela Sexualidade Sadia) pregou sobre isso muitos anos. Afinal, foi pastor batista por nove anos (dos 25 aos 34) e isso fazia parte do seu testemunho.
Ele se declarava ex-gay, foi casado com uma mulher por 14 anos e teve dois filhos com ela. Afirma que tentou viver como heterossexual, mas seus sentimentos homoafetivos falaram mais forte.
Conta que 11 anos atrás, aos 34 anos, separou-se da mulher e abandonou a vida de líder religioso. Viveu com um homem por sete anos. Hoje se declara ateu. Narra sua trajetória na biografia chamada “Em Busca de Mim Mesmo” (edição do autor pela Livre Expressão). Também expõe suas ideias no blog “Fora do Armário”.
Na entrevista ao UOL, Sergio usa o conhecido argumento que nasceu gay, tendo descoberto isso ainda na infância. “Homoafetividade é aquela afetividade que se lança naturalmente, sem forçar a barra, não existe abuso, nada exterior, ela naturalmente se lança para alguém do mesmo sexo… É inato, está dentro de você, não está sob seu controle, ainda que as decisões possam estar”, declarou.
Como cresceu em um lar cristão, soube desde cedo que homossexualidade era pecado. Por isso, buscou na igreja uma mudança. “Você pensa que passa a viver uma vida nova. Vem aquele papo evangélico que aquele que está em Cristo nova criatura é. Você acredita nisso. E eu passei a acreditar que podia casar e ser fiel à minha mulher e extrair da relação todo o gozo que precisasse e dar a ela a mesma coisa”, desdenha.
Arrependido de ter largado um bom cargo em uma companhia de petróleo para fazer trabalho missionário, acredita que tudo o que fez na igreja foi em vão. Ele acumulou experiências evangelizando durante a Parada Gay. Como pregava a conversão [de homossexual para heterossexual], defendia que era um exemplo da cura.
Mas em sua experiência como pastor disse que ouvia os outros e “ninguém mudava”. Acabou caindo, mas acreditando que era apenas um deslize, decidiu insistir. Não deu certo. Conta que percebeu que não tinha “cura” numa viagem que fez para um treinamento de liderança religiosa. Em visita a um shopping, conheceu um homem e teve relações com ele. No dia seguinte tinha de pregar diante dos colegas.
Somente em 2002 resolveu se tornar ex-ex-gay. Falou com a esposa e quis se separar. Ela não aceitou. Dois anos depois, lembra, “saí do armário e escancarei tudo. Dei uma entrevista para uma revista, denunciei essa coisa de ministério de cura. Denunciei essa farsa e comecei minha militância”.
Ao olhar para trás classifica o que ouviu de outros pastores como “besteira”. Agora Sergio quer apenas viver a sua verdade, como ele mesmo diz. “Tem gente que vive essa farsa para o resto da vida. Eu fui fiel à minha fé enquanto acreditei nisso. Quando vi que era bobagem, perda de tempo, fui fiel a mim mesmo”, resume.
Para o ex-pastor, hoje ele é uma pessoas “absolutamente livre” e “muito mais feliz”. Tempos atrás chamou o pastor Silas Malafaia de “idiota” por pregar que um gay pode mudar de vida. Ao falar sobre as igrejas que pregam o que ele mesmo pregava anos atrás, é contundente: “Elas prestam um desserviço. Primeiro, o gay sofre inutilmente. E quanto mais sofre, mais reforça a ideia de que não tem valor, que é um pecador inveterado. Segundo, ele não constrói uma vida, uma biografia de acordo consigo mesmo. Ele tenta agradar os outros e uma hora isso rui e ele tem que reconstruir tudo como eu…”.
